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Bluford Putnam – Economista-chefe do CME Group 2017-02-10T11:00:40+00:00

Project Description

Bluford Putnam
Economista-chefe do CME Group

Os riscos do protecionismo

O economista-chefe do CME Group, Bluford Putnam, diz que há um risco “particularmente grande para o sistema financeiro global que não está sendo considerado por muitos”: o agravamento do protecionismo. Como os fluxos de comércio internacional constituem um importante motor do crescimento global, afirma, e como o mundo está crescendo lentamente, pode haver uma tendência de aumento da legislação comercial protecionista, inclusive nos Estados Unidos, o que aumenta o risco de uma recessão. Essa tendência conservadora é bem explícita, por exemplo, no processo eleitoral norte-americano.

Em contrapartida, os juros nos EUA deverão crescer muito lentamente, o que facilita o cenário externo para o Brasil. Putnam também acredita em uma estabilização dos preços das commodities. “Parece que acabou a queda drástica dos preços do petróleo, do cobre, do minério de ferro e de outras commodities. Isso não significa que os preços voltarão a subir para patamares mais altos. Significa apenas que os mercados irão operar em faixas mais amplas e que não haverá mais o receio de quedas contínuas dos preços”, afirma. Putnam acredita que, se “os preços das commodities ficarem confinados a faixas mais estreitas e estáveis”, o crescimento global poderá melhorar a partir do ano que vem.

Putnam é managing director e economista-chefe do CME Group desde maio de 2011. Nesta função, ele é responsável pela análise econômica sobre os mercados financeiros globais para identificar tendências, avaliar fatores econômicos e projetar como isso pode afetar o CME Group e a estratégia de negócios da companhia. Ele também atua como porta-voz da companhia a respeito das condições econômicas globais e gerencia as iniciativas de pesquisa externas feitas pelo CME Group.

O economista-chefe do CME Group tem uma experiência de mais de 35 anos na indústria de serviços financeiros, com expertise na atuação dos bancos centrais, análise de investimento e no gerenciamento de portfólio. Além do CME Group, ele atuou em instituições financeiras como o Kleinwort Benson, Morgan Stanley, Chase e também no Federal Reserve de Nova York. Ele possui Ph.D. em Economia pela Tulane University. Escreveu cinco livros sobre finanças internacionais, além de vários artigos em publicações acadêmicas e de negócios.

A seguir, veja sua entrevista:

RESENHA – A seu ver, quais são os maiores riscos para o sistema financeiro global atualmente? As pessoas deveriam atentar e não estão atentando para o quê? De onde virá o próximo grande estresse financeiro em sua opinião?

BLUFORD PUTNAM – Vejo um risco particularmente grande para o sistema financeiro global que não está sendo considerado por muitos. Os fluxos de comércio internacional constituem um importante motor do crescimento global. Em um mundo que está crescendo lentamente, tal como temos agora, aumentam tanto a incerteza política quanto a tendência de favorecer o protecionismo comercial. Na minha visão, se o pêndulo balançar em direção ao aumento da legislação comercial protecionista em vários países ao redor do mundo, inclusive nos EUA, haverá um risco maior de recessão global.

RESENHA – Segundo o senhor, há fortes ventos contrários que poderão frear a atividade econômica dos EUA em 2016, a tal ponto que o crescimento real do PIB talvez não passe da taxa decepcionante de 1,60% ao ano em média. Por isso, o Federal Reserve provavelmente elevará a taxa de juros duas vezes em 2016, mas em apenas 0,25% por vez. Poderia elaborar um pouco? Quais serão as consequências para os mercados e para o Brasil?

BLUFORD PUTNAM – É verdade que o desempenho da economia dos EUA parece fadado a ser decepcionante em termos de crescimento real do PIB. No entanto, não acho que haverá recessão. Os mercados de trabalho continuam bastante robustos, com baixo desemprego. A inflação está abaixo da meta do Fed, que é 2%, mas está acelerando muito lentamente e alcança um patamar um pouco mais elevado a cada trimestre. Nesse contexto, o Fed está debatendo a opção entre uma ou duas altas de 0,25% da taxa básica de juros (“federal funds rate”) em 2016. Dois fatores complicam a decisão do Fed. Primeiro, o crescimento global ainda é bastante lento e o Fed vê isso como risco. Segundo, o Fed nunca admitiria que a política dos EUA pudesse afetar suas decisões mas, dado o andamento controverso do atual estágio da eleição presidencial, o Fed poderá usar o baixo crescimento global ou fatores afins como desculpa para não elevar os juros até depois das eleições de novembro – ou seja, até dezembro de 2016. Se o Fed fosse pura e simplesmente “dependente de dados”, como frequentemente alega, ainda poderia haver um aumento dos juros em junho de 2016.

As implicações para o Brasil e outros países ao redor do mundo são mínimas. Estamos falando de aumentos dos juros de apenas 0,25% e são aumentos amplamente esperados, embora a data exata da decisão permaneça incerta. Há questões infinitamente mais importantes para o Brasil e para os mercados financeiros globais do que aumentos minúsculos e amplamente esperados da taxa básica de juros dos EUA.

RESENHA – A seu ver, o que acontecerá após a eleição presidencial nos EUA? É provável que a paralisia do Congresso continue? Como ficarão os orçamentos futuros e a apreciação do dólar? O senhor prevê mudanças no relacionamento com o Brasil?

BLUFORD PUTNAM – Embora a campanha presidencial nos EUA tenha sido excepcionalmente fluida, com muitas surpresas, ainda parece bastante provável (em maio de 2016) que falte uma “supermaioria” no Senado (60 votos num total de 100) tanto aos Democratas quanto aos Republicanos, de modo a tirar Washington da paralisia. Ou seja, o próximo ou a próxima presidente terá de lidar com um Congresso dividido e isso poderá impedir a aprovação de uma reforma tributária substancial ou de investimentos em infraestrutura capazes de estimular a economia dos EUA.

A maioria dos pré-candidatos a presidente vem assumindo posições “populistas” a favor do abandono pelos EUA de seu papel ativista na cena política mundial. Essa virada em direção a uma política anti-imigração mais dura e ao protecionismo, caso aconteça, significa que não haverá novos acordos comerciais ou de parceria entre EUA e Brasil para melhorar o comércio mútuo.

RESENHA – Qual a sua visão das perspectivas econômicas da China?

BLUFORD PUTNAM – Entre 1980 e 2010, o PIB real da China cresceu cerca de 10% ao ano. Nesse período, a China modernizou sua economia rapidamente através do investimento dirigido pelo governo em obras gigantescas de infraestrutura e criou uma economia impulsionada pelas exportações.

A maioria dos pré-candidatos a presidente vem assumindo posições “populistas” a favor do abandono pelos EUA de seu papel ativista na cena política mundial. Essa virada em direção a uma política anti-imigração mais dura e ao protecionismo, caso aconteça, significa que não haverá novos acordos comerciais ou de parceria entre EUA e Brasil para melhorar o comércio mútuo.

Nos últimos anos, a construção de novas obras de infraestrutura na China foi atingida pela lei de rendimentos decrescentes, o que nada mais é do que o resultado natural de seu êxito. O crescimento vem caindo conforme a economia amadurece. Além disso, a economia orientada à exportação da China está enfrentando os ventos contrários de um mundo que cresce pouco. Se seus clientes não crescem, suas exportações também não crescem. Desvalorizar a moeda fará pouca diferença até que o crescimento mundial comece a melhorar. A China vem tentando contornar esse problema via maior ênfase no setor de serviços e na demanda doméstica como locomotivas da economia. Mas isso leva tempo. Além do mais, há o obstáculo demográfico do envelhecimento da população. À medida que aumenta a proporção de pessoas com mais de 65 anos, o consumo per capita tende a cair. A China parece ter evitado um pouso forçado (“hard landing”) ou recessão, mas aparentemente o crescimento cairá para a faixa de 3% na década de 2020 à medida que o país for amadurecendo e envelhecendo.

RESENHA – O senhor disse em artigo recente que os futuros de milho, soja e trigo vêm sendo negociados em uma faixa estreita nos últimos 12 meses aproximadamente, com a volatilidade implícita nas opções desses produtos caindo para níveis extremamente baixos. Tais níveis de volatilidade realizada e implícita são surpreendentes, dada a intensidade do recente El Niño e as fortes flutuações do dólar. O senhor acha que esse período de negociação relativamente tranquila das commodities agrícolas possa durar?

Parece que acabou a queda drástica dos preços do petróleo, do cobre, do minério de ferro e de outras commodities. Isso não significa que os preços voltarão a subir para patamares mais altos. Significa apenas que os mercados irão operar em faixas mais amplas e que não haverá mais o receio de quedas contínuas dos preços.

BLUFORD PUTNAM – Parece que haverá mudanças nos mercados agrícolas. Há dois fatores. Primeiro, ao longo do tempo a agricultura vem tornando-se cada vez mais globalizada. Chuva na Argentina pode impactar os preços da soja em todo o mundo. O aumento da produção de milho nos EUA afeta os preços em escala global. Quanto mais intensa a ligação entre mercados agrícolas nos diferentes países, mais provável será que perturbações climáticas em determinada região do planeta impactem os preços do milho, do trigo ou da soja em países de outra região do mundo. Portanto, em segundo lugar, as condições meteorológicas são importantes, sim, e aparentemente estamos vendo uma mudança de El Niño para La Niña. Se de fato acabar predominando La Niña (águas mais frias que o normal no oceano pacífico equatorial), poderemos ver invernos mais frios nos EUA, mais furacões atingindo a costa leste dos EUA, a volta da seca no Brasil, mais chuva na Austrália, na Indonésia e na Índia. É um quadro complexo, mas muito provavelmente resultará em volatilidade considerável nos mercados agrícolas.

RESENHA – O senhor acha que os preços das commodities estão começando a estabilizar-se? Ou veremos preços ainda mais baixos?

BLUFORD PUTNAM – Parece que acabou a queda drástica dos preços do petróleo, do cobre, do minério de ferro e de outras commodities. Isso não significa que os preços voltarão a subir para patamares mais altos. Significa apenas que os mercados irão operar em faixas mais amplas e que não haverá mais o receio de quedas contínuas dos preços. Se os preços das commodities ficarem confinados a faixas mais estreitas e estáveis, será um indício muito positivo de que o crescimento global poderá melhorar em 2017 e além.

RESENHA – O senhor acha que essa estabilidade dos preços das commodities poderá permitir a revalorização das moedas dos países emergentes?

BLUFORD PUTNAM – A negociação das commodities em faixas de preços mais estáveis, mesmo que as faixas sejam bem inferiores aos altos níveis da última década, é uma ótima notícia para o crescimento global, especialmente em países fortemente ligados às commodities. De fato, em 2016 já vimos a revalorização substancial das moedas de países exportadores de commodities e isso deverá continuar.

RESENHA – Sua análise prospectiva das tendências de longo prazo no mercado do petróleo, tais como crescimento global lento, avanços contínuos da eficiência do consumo de combustível nos transportes e melhorias na tecnologia da extração, sugere que a era de preços relativamente baixos ainda poderá durar muitos anos. Quais serão as consequências?

BLUFORD PUTNAM – O preço global do petróleo enfrenta algumas tendências tecnológicas significativas. Do lado da procura, cerca de 75% do petróleo refinado é utilizado no transporte. O transporte torna-se mais eficiente a cada ano e essa tendência parece fadada a acelerar.

O que isso significa é que para cada aumento de 1% no PIB global há um impacto cada vez menor na procura por petróleo. Do lado da oferta, o progresso tecnológico também beneficia o processo de produção do petróleo, que está ficando mais eficiente. Por exemplo, embora os preços do petróleo tenham ficado muito baixos em 2015 e os produtores nos EUA tenham reduzido drasticamente o número de sondas de perfuração de poços de petróleo, a produção permanece bastante estável. A eficiência e economia de custos na produção do óleo de xisto só irão melhorar com o tempo. As consequências do progresso tecnológico, tanto no lado da procura quanto no lado da oferta da equação do óleo, sugerem que os preços permanecerão relativamente baixos.

Do lado da procura, cerca de 75% do petróleo refinado é utilizado no transporte. O transporte torna-se mais eficiente a cada ano e essa tendência parece fadada a acelerar. O que isso significa é que para cada aumento de 1% no PIB global há um impacto cada vez menor na procura por petróleo. Do lado da oferta, o progresso tecnológico também beneficia o processo de produção do petróleo, que está ficando mais eficiente.

RESENHA – Crise política, crise fiscal, recessão, inflação alta, corrupção, Lava Jato, impeachment. Qual a percepção estrangeira deste momento com relação ao Brasil? Qual a visão internacional da economia brasileira, do funcionamento das instituições democráticas e do futuro do Brasil?

BLUFORD PUTNAM – É um quebra-cabeça interessante. Os países mais “jovens” como o Brasil parecem estar caminhando em uma direção politicamente menos arriscada e, enquanto isso, o futuro dos países mais “velhos”, como os EUA, o Reino Unido e a Europa, parece estar ficando mais incerto. A eleição presidencial nos EUA em novembro de 2016 e o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, que acontecerá em junho de 2016, poderão ser eventos decisivos. O meu conselho é celebrar os Jogos Olímpicos e curti-los ao máximo!