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iMercado, a Busca Pela Excelência Operacional 2017-02-10T11:00:41+00:00

Project Description

iMercado, a Busca Pela Excelência Operacional

Em função dos altos volumes de transações e da complexidade de seus processos, os mercados financeiro e de capitais sempre buscaram eficiência operacional por meio de automatização no tratamento e na troca de informações. Mais recentemente, as autoridades reguladoras têm chamado a atenção para a necessidade de eliminação de riscos por meio de recomendações, como a redução do ciclo de liquidação e a adoção de padrões de comunicação internacionalmente aceitos. Neste contexto,
destacam-se soluções como o iMercado, cujo propósito é proporcionar maior nível de automatização nos processos de pós-negociação,
beneficiando-se de mensagens e arquivos padronizados.

STP (Straight Through Processing)

Na década de 1970, quando a Bovespa implantou um sistema que disseminava as informações cursadas em seu pregão, o mercado de capitais brasileiro passou a conviver com os primeiros recursos tecnológicos de uma forma mais ampla. Desde então, outros marcos estreitaram a relação entre o mercado de capitais e a tecnologia da informação, tais como a desmaterialização dos ativos custodiados, o desenvolvimento do sistema de negociação eletrônica e os serviços de home broker. Atualmente, é impossível imaginar os processos dos mercados financeiros e de capitais sem o suporte de sistemas e infraestruturas tecnológicas extremamente robustas e sofisticadas.

Se, de um lado, estão à disposição os mais avançados e modernos recursos tecnológicos, do outro, há uma demanda crescente por estes recursos, motivada principalmente pelos seguintes fatores:

  •  Os instrumentos do mercado financeiro e de capitais possuem características específicas e, muitas vezes, bem distintas uma das outras.
  •  A quantidade de processos e procedimentos relacionados aos mais diversos tipos de instrumentos do mercado financeiro e de capitais exige eficiência dos fluxos operacionais.
  •  O dinamismo do mercado frequentemente demanda novos produtos e novos procedimentos.
  •  O mercado necessita se adaptar às novas demandas legais e regulatórias.

Em função dos desafios oriundos dos fatores mencionados acima, há cerca de duas décadas surgiu o conceito de STP (Straight Through Processing), sigla em inglês que caracteriza o conjunto de
iniciativas e soluções que visam à eficiência por meio da eliminação de intervenção manual no tratamento e na troca de informações entre as partes envolvidas nos fluxos operacionais. Quando há procedimentos executados de forma manual, a possibilidade de erros operacionais se potencializa e há limitações para lidar com alto volume de transações.

Neste contexto, o STP apresenta-se como uma tendência para a indústria financeira e é desejado em todas as etapas do ciclo de vida de uma transação, tanto (i) nos procedimentos internos e no tratamento pelos sistemas legados das instituições como (ii) nos mecanismos de comunicação entre as instituições envolvidas.

Na figura abaixo, é possível visualizar os principais processos da cadeia de valor do mercado de capitais, desde a pré-negociação, passando pela negociação, até a pós-negociação. Também, de forma ilustrativa, a figura apresenta o envolvimento dos principais atores, dentro do mercado brasileiro, nestes processos.

  • Figura 1 – Cadeia de valor no mercado de capitais brasileiro

Redução do ciclo de liquidação

A crise de 2008 foi um marco histórico para o mercado financeiro mundial. A sua magnitude e as consequências avassaladoras obrigaram os órgãos reguladores a reavaliar os arcabouços legais e regulatórios para evitar que algo parecido ocorra novamente. Embora o foco principal tenha sido nas questões que envolvem diretamente o mercado de derivativos de balcão, o risco de contraparte central também foi um dos pilares das discussões. Neste sentido, a redução do ciclo de liquidação de operações se tornou crucial, tanto para a redução do risco de contraparte central como também para proporcionar maior eficiência no gerenciamento de liquidez.

Dentro deste contexto, os principais mercados começaram a trabalhar para reduzir seus ciclos de liquidação. Alguns deles, como o mercado europeu e o de Hong Kong, já migraram o ciclo de liquidação do mercado à vista de ações de D+3 (três dias úteis da data de realização da operação) para D+2 (dois dias úteis da data de realização da operação). Outros, como o da Austrália e o dos Estados Unidos, anunciaram que migrarão este ciclo de liquidação também para D+2. A previsão é que o mercado australiano migre em março de 2016 [1] e o americano, no terceiro trimestre de 2017 [2].

A redução do ciclo de liquidação é uma tendência global que deve alcançar também o mercado brasileiro, possibilitando, desta forma, sua harmonização com os principais mercados internacionais. Trata-se, por enquanto, de uma discussão isolada na indústria local, mas que, no momento adequado, vai requerer um amplo envolvimento de todas as partes (reguladores, provedores de infraestruturas, associações, instituições do sell-side e do buy-side, etc.) para se avaliarem os impactos de uma possível migração do ciclo de liquidação do mercado à vista de D+3 para D+2.

  • Figura 2 – Ciclo de liquidação atual do mercado à vista no Brasil

A complexidade é grande e abrange adaptações em sistemas, processos, procedimentos operacionais e nos relacionamentos entre as instituições. Processos como alocação de operações, autorizações dos custodiantes e conciliação entre corretoras e custodiantes (pre-matching) são os que provavelmente terão maior impacto.

Uma maneira de mitigar os riscos operacionais é estimular as adaptações aos poucos e de forma gradativa. Recentemente, a BM&FBOVESPA anunciou a redução de uma parte da grade de alocação de operações do mercado à vista de ações. Desde junho de 2015, a identificação de comitentes locais passou a ser permitida somente no mesmo dia da realização da operação, e não mais em D+1. Para os comitentes não residentes, a identificação deixou de ser permitida até 21h30 de D+1 e passou para 17h00 de D+1. O objetivo final é que todo o processo de alocação do mercado à vista de ações se encerre às 13h00 de D+1. Porém este movimento, assim como outros similares, exigirá um nível maior de automatização nos fluxos operacionais e na comunicação entre as instituições.

Padronização de comunicação no mercado financeiro e ISO 20022

O princípio 22 dos Princípios para Infraestruturas do Mercado Financeiro (PFMI, na sigla em inglês)[3], emitido pelo Banco Internacional de Compensações (BIS, na sigla em inglês) e pela Organização Internacional das Comissões de Valores Mobiliários (IOSCO, na sigla em inglês), recomenda que uma instituição provedora de infraestrutura para o mercado financeiro deve utilizar ou, no mínimo, acomodar padrões e procedimentos de comunicação internacionalmente aceitos, a fim de buscar eficiência nos processos de pagamento, compensação, liquidação e registro.

Nesta mesma linha, o Banco Central do Brasil (BCB), por meio dos Relatórios de Vigilância do Sistema de Pagamentos Brasileiro de 2013 [4] e de 2014 [5], também ressalta a adoção de padrões de comunicação internacionalmente aceitos em termos de competição e eficiência no sistema de pagamentos. Desde então, o BCB tem apoiado e conduzido discussões junto aos participantes com o intuito de uniformizar o conhecimento e capturar a visão das instituições sobre o tema.

No entanto, embora as diretrizes estejam estabelecidas pelas autoridades reguladoras, a adoção, na prática, requer uma avaliação de custos e benefícios muito cautelosa. Uma migração de tecnologia, muitas vezes acompanhada de adaptações de processos e procedimentos, exige investimentos consideráveis. Por outro lado, dependendo das características do modelo e segmento de atuação de determinada instituição, bem como de seus clientes, os benefícios podem compensar os investimentos realizados. Portanto, a avaliação da adoção ou não de padrões internacionalmente aceitos não deve considerar apenas o aspecto tecnológico. Trata-se de uma decisão do ponto de vista de negócio e estratégico da instituição.

Na BM&FBOVESPA, a integração da pós-negociação (IPN), projeto que unifica as clearings, trouxe inúmeras oportunidades. Em 2010, quando o projeto começou a ser estruturado e desenvolvido, foi realizada a avaliação sobre qual o padrão deveria ser adotado na comunicação com seus participantes. Após estudos e consultas a especialistas no assunto, verificou-se que o padrão ISO 20022 era o que estava despontando e sendo mais aceito no ambiente de pós-negociação.

A estrutura do padrão ISO 20022 é baseada em três camadas bem definidas: a primeira camada define os aspectos relacionados aos conceitos e aos processos de negócio; a intermediária trata do modelo de mensagens do ponto de vista lógico; e a terceira trabalha a sintaxe das mensagens.

Para que uma mensagem seja construída, utiliza-se o princípio de cada camada. A primeira etapa passa pela definição do processo de negócio, dos envolvidos e das responsabilidades de cada parte envolvida. Estas informações, ou elementos funcionais, são organizadas em componentes de negócio. A partir dos componentes de negócio, na camada lógica, são definidas as informações que as mensagens precisam conter, independentemente da sintaxe, organizadas nos componentes de mensagem. Por fim, na última camada, define-se a sintaxe da mensagem. Para esta representação física da mensagem, a ISO 20022 utiliza primordialmente a linguagem XML.

Além destas camadas, a ISO 20022 tem um repositório único e centralizado de todo o seu conteúdo, contendo os dicionários e os componentes de negócio e de mensagem. Portanto, a construção de seus arquivos e mensagens baseados no padrão ISO 20022 é mais eficiente, principalmente em função da possibilidade de reúso dos componentes de negócio e de mensagem. Consequentemente, há também efeitos na redução de custos para elaboração e manutenção das mensagens.

Adicionalmente, a adoção do padrão ISO 20022 pode proporcionar outros benefícios, tais como facilitar (i) o acesso e a comunicação com investidores e intermediários estrangeiros e (ii) a utilização de soluções e serviços de provedores de tecnologia estrangeiros.

Em função dos benefícios apresentados, a BM&FBOVESPA optou em construir todo o catálogo de mensagens e arquivos da Clearing BM&FBOVESPA com base no padrão ISO 20022. Para cada fluxo de negócio, buscam-se nos artefatos já existentes no repositório da ISO 20022 os atributos necessários para compor as mensagens e arquivos deste fluxo. Caso não exista equivalência, busca-se proximidade ao padrão.

Além dos fluxos entre a Clearing BM&FBOVESPA e seus participantes diretos, a BM&FBOVESPA também adotou a mesma estratégia de adoção do padrão ISO 20022 nos fluxos transacionais do serviço iMercado.

iMercado

De uma forma simplificada, é possível separar o fluxo de informações relacionadas aos processos de pós-negociação em duas etapas: (i) entre a BM&FBOVESPA e seus participantes diretos (sell-side) e (ii) entre o sell-side e o buy-side.

Na primeira etapa, em função dos sistemas e da infraestrutura tecnológica, bem como dos catálogos de mensagens e arquivos produzidos e divulgados pela BM&FBOVESPA, pode-se afirmar que a comunicação é absolutamente padronizada. Já na segunda, em função das diversas características e necessidades das instituições, há espaço e oportunidades de padronização, buscando, desta forma, maior nível de automatização e redução de risco operacional.

  • Figura 3 – Fluxo de informação sem iMercado

A proposta do iMercado é justamente prover a infraestrutura tecnológica e os catálogos padronizados de mensagens e arquivos para a comunicação entre o sell-side (essencialmente corretoras) e o buy-side (custodiantes, gestores, administradores e fundações) nos processos de pós-negociação.

  • Figura 4 –  Fluxo de informação com iMercado

Para fins elucidativo e ilustrativo, o iMercado pode ser comparado a uma rodovia por onde se trafegam caminhões de transporte de veículos novos (caminhões-cegonha) entre uma montadora e uma concessionária revendedora. Ou seja, o iMercado é o meio (a rodovia) por onde se trafegam mensagens e arquivos padronizados (os caminhões-cegonha). O tratamento das mensagens e dos arquivos, bem como as regras de envio ou recebimento, fica a critério das instituições de origem e destino (a montadora e a concessionária).

O iMercado possui essencialmente dois módulos: o módulo de mensageria e o módulo de arquivos. O módulo de mensageria tem o propósito de cobrir os fluxos transacionais, com processamento em tempo real. Atualmente, estão em desenvolvimento os fluxos relacionados à alocação de operações, ou seja, à troca de informações entre o sell-side e o buy-side para fins de identificação do comitente final. Por exemplo: no primeiro momento, determinada ordem de um gestor é executada por uma corretora, ainda sem a identificação do(s) fundo(s), ou seja, é executada na conta master [6] deste gestor. No segundo momento, para que a corretora executora identifique o(s) fundo(s) na clearing, é necessário que o gestor envie à corretora a informação da quantidade a ser alocada para cada fundo. É justamente nesta etapa que o iMercado disponibiliza a infraestrutura tecnológica e o catálogo de mensagens padronizadas. Utilizando o iMercado, a comunicação entre as corretoras e os gestores torna-se totalmente automatizada, ou seja, no caso específico do fluxo de alocação, tanto a corretora confirma a realização da operação para o gestor como o gestor informa a distribuição deste negócio nos seus fundos para a corretora. Com esta informação, recebida por meio das mensagens do iMercado, a corretora pode, sem nenhuma interferência manual (STP), gerar as mensagens de alocação que devem ser encaminhadas à clearing. As mensagens de alocação do iMercado contemplam a confirmação da operação realizada, os fluxos de repasse, o processo de identificação do comitente e as informações da nota de corretagem.

A previsão é que os fluxos de alocação estejam disponíveis em ambiente de produção a partir de 2016, no mesmo cronograma de implantação da segunda fase da clearing integrada. Após a implantação destes fluxos de alocação, estão previstos outros processos, tais como cadastro de investidor estrangeiro, conciliação entre corretora e custodiante (pre-matching), liquidação, controle de posições, gerenciamento de colaterais e empréstimo de ativos.

Já o módulo de arquivos se propõe a oferecer padronização nos processos de conciliação, ou seja, arquivos diários aos custodiantes, gestores, fundações e administradores com as informações das posições de suas carteiras ou de clientes na(s) corretora(s) em que houver posição. Para que o arquivo passe a ser enviado diretamente pela clearing aos custodiantes, gestores, fundações e administradores, é necessário que a corretora aprove, apenas uma única vez, este envio. O arquivo contém informações de posições do mercado à vista, opções, termo, futuro, balcão, empréstimo de ativos, colaterais, liquidação financeira e informações da depositária (saldo em custódia e eventos corporativos). Este arquivo, denominado IMBARQ [7], tem previsão de implantação em conjunto com a segunda fase da clearing integrada.

  • Figura 5 – Módulos de arquivos do iMercado

A adoção das mensagens do iMercado, portanto, irá permitir que os participantes dos mercados financeiro e de capitais realizem seus processos de pós-negociação de forma totalmente automatizada. A adoção dos arquivos trará importantes reduções de tempo de processamento, custos e riscos operacionais nos processos de conciliação e abertura de dia. A eficiência decorrente da utilização, tanto das mensagens como dos arquivos do iMercado, mostra-se fundamental para o atingimento de metas de reduções significativas de grades de alocação, dos prazos do processo de conciliação entre corretoras e custodiantes, entre outros, e, consequentemente, do ciclo de liquidação do mercado à vista de ações de D+3 para D+2

Autores

Airton Minoru Murakami
Airton Minoru Murakami
BM&FBOVESPA
Viviane El Banate Basso
Viviane El Banate Basso
BM&FBOVESPA