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O dia em que o pregão da Bolsa teve dois visitantes singulares

  • Ras TE de Genebra e Parecis da CV, dois bezerros leiloados  no evento de  lançamento do novo contrato futuro de bezerro

Não é fácil a vida de quem precisa divulgar e vender produtos financeiros no Brasil. O País possui escassa poupança interna, educação financeira sofrível, está entre os piores do mundo nos rankings de conhecimento de matemática e tem uma histórica aversão ao risco. Acrescente-se a esta dificuldade estrutural um cenário conjuntural de montanha-russa. Estamos em 2002 e a BM&F vai lançar um novo Contrato Futuro de Bezerro.

Os fatos envolvendo a corrida eleitoral e suas repercussões no mercado e na economia ocuparam a agenda do País em 2002. As eleições no Brasil causaram tensão nos mercados devido à expectativa de vitória do candidato Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e da eventual ruptura que seu governo pudesse gerar na condução da política econômica, o que não se confirmou. Logo no começo do ano, em 21 de janeiro, apareceu morto após um sequestro o prefeito de Santo André, Celso Daniel, que deveria ser o coordenador da campanha presidencial de Lula.

Em outros países da América Latina, houve também momentos de estresse. O ápice da crise institucional na região foi a Argentina. Houve cinco presidentes em 12 dias, dois deles derrubados pelo povo nas ruas, decretou-se estado de sítio duas vezes, mais de 900 estabelecimentos comerciais foram saqueados. O Congresso Nacional foi depredado, a Casa Rosada, sede da Presidência, invadida, e o Ministério da Fazenda incendiado. Na anarquia que tomou conta de Buenos Aires e arredores, morreram 30 pessoas, 4 mil foram detidas e 130 policiais saíram feridos.

O ambiente político carregado em duas das maiores economias da América Latina juntou-se com a crescente volatilidade nos mercados globais desde os ataques às torres gêmeas do World Trade Center em setembro de 2001. Havia um brutal aumento na demanda de hedge por empresas e bancos, provocando fortes oscilações na taxa de câmbio. A aversão ao risco fez também cair drasticamente o apetite por títulos públicos.

Para saciar a demanda por hedge cambial do mercado e, ao mesmo tempo, destravar a venda de títulos públicos, os técnicos da Bolsa e do Banco Central criaram os swaps cambiais, um dos produtos mais engenhosos e de maior sucesso da BM&FBOVESPA. Apenas em 2002, foram negociados mais de US$ 100 bilhões em swaps. A data do primeiro leilão de swap cambial foi 27 de março. Ao longo do ano, o produto foi sofrendo aperfeiçoamentos.

Entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais, que levariam à vitória de Lula em 27 de outubro, com 61,27% dos votos, ou 52,793 milhões de eleitores, o diretor de imprensa da BM&F na ocasião, Noenio Spinola e Ana Lúcia Matos Branco, então responsável pela área de relações públicas, organizaram um evento inusitado para atrair a atenção do público para o lançamento do novo contrato futuro de bezerro.

Dois convidados insólitos ocuparam o então pregão da BM&F, um espaço no subsolo da Bolsa cuja imagem com os operadores agitados com seus jalecos coloridos ainda é o cartão-postal do mercado para muita gente: Ras TE de Genebra, nove meses de idade, 370 quilos, e Parecis da CV, um ano, 485 quilos, com os predicados de ter sido o recordista em vendas de sêmen da sua cidade.

Os dois bezerros, devidamente identificados com crachás no mesmo modelo dos operadores de pregão e feitos exclusivamente para eles, e mais um terceiro que não compareceu, foram leiloados em pleno pregão lotado no dia 24 de outubro, três dias antes da eleição de Lula, como mostram as fotos que ilustram este texto.

José Carlos Branco, lendário diretor do pregão da Bolsa, relembra o alvoroço desse leilão beneficente que deu início ao novo contrato futuro de bezerro. Ras e Parecis, devidamente munidos de fraldas e tão indóceis como os mercados àquela altura dos fatos, tiveram que ser levados pelos elevadores até o quarto subsolo, local do pregão. O veterano jornalista Antonio Reche, do Canal Rural, foi testemunha ocular da história e do sucesso do evento, a despeito da forte concorrência da cena política. “A foto estampou os jornais no dia seguinte”, atesta

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