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Fabio Giambiagi – Economista 2017-02-10T11:00:41+00:00

Project Description

Fabio Giambiagi
Economista

A conta chegou

De 2003 a 2014, o total de indivíduos que recebem algum tipo de transferência do governo federal passou de 39 milhões para 78 milhões de pessoas. A conta da Previdência Social passou de 2,5% do PIB em 1988 para uma estimativa de 7,5% em 2015. Em 2014, o governo federal pagou muito mais de R$ 400 bilhões em benefícios previdenciários, R$ 85 bilhões em serviços de saúde, R$ 55 bilhões em seguro-desemprego e abono salarial e R$ 30 bilhões em Bolsa Família.

“Faço o paralelo entre a questão previdenciária e a questão ambiental. O mundo de novembro de 2015 não é muito diferente no que se refere à relação entre o homem e o meio ambiente do que o mundo de outubro de 2015, mas ele é dramaticamente diferente do mundo de 1965, 50 anos atrás. Com a Previdência, acontece a mesma coisa.” Com esta comparação, o economista Fabio Giambiagi tenta chamar a atenção para a necessidade de reformas estruturais no país. Com graduação e mestrado na UFRJ, funcionário do BNDES, Giambiagi recorre ao humor e aos aforismos, além de extensa produção acadêmica, com mais de 25 livros publicados, combinada com artigos e palestras, para tornar seus alertas mais palpáveis para o público em geral.

Assim, as barreiras que impedem o crescimento do Brasil são as “vacas sagradas”, como a Previdência. Segundo ele, as palavras “consenso” e “economistas” não podem ficar juntas na mesma frase porque é sabido que “nós economistas somos pródigos em brigar entre nós”. Sobre o papel do governo na economia, pontifica:  “A tarefa principal do governo deve ser muito mais a de ensinar a pessoa a pescar que de dar o peixe. O problema é que viramos um país de pedintes, onde todo mundo tem algum peixe a pedir para o governo e agora o aquário está secando e o governo precisa racionar os peixes, porque quase ninguém sabe pescar”.

Leia sua entrevista a seguir:

RESENHA – Em sua extensa produção acadêmica, o senhor aponta o fato de o Brasil estar mal preparado para lidar com o mundo de hoje, o que vem contribuindo para a perda de dinamismo da nossa economia. Esta afirmação, feita de diferentes formas, nem é de hoje, quando a crise está mais grave e os problemas que o senhor descreveu ficaram mais explícitos. Pelo contrário, o senhor vem apontando essa “aversão” a alguns dos princípios do capitalismo há vários anos. Como mudar esse estado de coisas?

FABIO GIAMBIAGI – Eu diria que há três instâncias de atuação. A primeira, no nível mais básico, está ao alcance do indivíduo e depende da atitude de cada um. Qualquer empresa, empresário ou trabalhador pode se preparar melhor e se aprimorar com vistas à sua própria evolução e à sua melhor inserção no sistema e no mundo. A segunda é a seara de nós intelectuais e pensadores que acreditamos na pertinência das teses em favor do sistema. A terceira é a da liderança política. O Brasil teve cinco grandes líderes políticos nos últimos 35 anos. Os dois primeiros foram Tancredo Neves e Ulysses Guimarães, ícones da liderança civil em defesa do restabelecimento da democracia nos anos 1980. O terceiro foi Fernando Collor, o modernizador dos anos 1990 – não o senador da base aliada de hoje –, com sua pregação e prática em favor da abertura econômica e da privatização, independentemente das questões que levaram à sua saída do poder. O quarto foi Fernando Henrique, campeão da estabilização e das reformas dos seus dois governos. O quinto foi Lula, com a bandeira da inclusão social. É preciso agora uma liderança que capte a necessidade de o país mudar de rumos e que guie o país nessa nova etapa. É evidente a qualquer leitor de jornais que a presidente Dilma não exerce essa liderança.

RESENHA – A questão é política? Como colocar essas reformas na agenda do país? A oposição deveria fazer isso? Como construir um consenso para essas reformas?

FABIO GIAMBIAGI – Sim, a questão é política no seguinte sentido: a decisão acerca de que rumos o país seguirá terá que ser tomada na arena política. Considero-me um quadro técnico e prezo isso: quem é técnico deve valorizar o seu papel, mas ao mesmo tempo reconhecer as suas limitações. Quem supervalorizou o papel do técnico em uma democracia em geral fracassou. Nas minhas palestras, sempre frisei isso: “o economista pode pensar X ou Y, mas quem decide é o político”. Sejamos realistas, porém: quem faz e organiza a agenda é o Executivo, é quem está no governo. Faz sentido cobrar inconsistências da oposição, apontar contradições entre o que faz e o que fazia quando era governo, etc. Porém não faz muito sentido que se cobre da oposição um plano detalhado de governo com a mesma profundidade que devem ter os planos de quem está na posição de governante. E, obviamente, esqueçamos qualquer possibilidade de sair do Congresso qualquer iniciativa global que vá além de uma colcha de retalhos. Insisto: quem tem que organizar e “tocar” a agenda é o Executivo. Sobre consensos, eu lembro uma frase genial do Millôr Fernandes: “O poder é o camaleão ao contrário: todos tomam a sua cor”, para relativizar um pouco o papel bloqueador resultante da fragmentação. Quando o núcleo de Poder está coeso e tem um bom diagnóstico e poder de articulação, o Congresso em boa parte vai atrás. Custa muito tempo, muitas negociações, mas, como dizem os americanos, “at the end of the day”, foi assim que passaram a lei de privatizações, a desindexação da economia, o ajuste fiscal de 1999, o fator previdenciário, etc. Agora, quando o governo é uma nau sem rumo, aí, sim, o caos se instala e o Congresso aprova qualquer coisa. É o que aconteceu neste ano horrível de 2015.

RESENHA – Existe um consenso técnico, do ponto de vista dos economistas, sobre o que deve ser feito? Existe um problema de comunicação aqui, ou seja, não se consegue demonstrar à população que essas mudanças lhe fariam muito bem?

FABIO GIAMBIAGI – As palavras “consenso” e “economistas” não podem ficar juntas na mesma frase porque é sabido que nós economistas somos pródigos em brigar entre nós desde a época de Adam Smith. Mesmo assim, deixando a brincadeira de lado, com certa licenciosidade e se nos restringirmos ao universo dos economistas que defendem ideias relativamente liberais, eu diria que sim, que há uma razoável homogeneidade em torno das teses de que é preciso ter contas públicas ajustadas, que não dá para transigir excessivamente com a inflação, que o “tripé” macroeconômico deve ser restabelecido, que uma reforma previdenciária é rigorosamente fundamental e que o país deve se posicionar de uma forma mais aberta na sua inserção no mundo.

RESENHA – O ex-ministro Mario Henrique Simonsen fez um duro ataque à Constituição de 1988, ainda naquela época, demonstrando como a nova Carta levaria o país ao quadro em que estamos hoje. No entanto, essa visão liberal, ou esse diagnóstico, parece longe de ser considerada um consenso ainda, quase 30 anos depois. Há alguma forma de mudar essa visão sobre o país? A sensação de quem acompanha o noticiário recente é que não só não evoluímos, como também parece que retrocedemos. O senhor concorda?

FABIO GIAMBIAGI – O ex-secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger dizia que “a ausência de alternativas clarifica maravilhosamente a mente”. O Brasil viveu durante anos e anos a miragem de que o Estado podia tudo e que toda reivindicação poderia ser aceita pela acolhida de um Tesouro generoso. O resultado foi o déficit público atual, da ordem de 9% do PIB. Na medida em que ficar claro para todos que “o cobertor está curto”, se tornará mais evidente que há escolhas a serem feitas. É um processo. Precisamos mudar a mentalidade de muitas pessoas e esses processos de conversão não são súbitos, tomam seu tempo. O Brasil aceitou a ideia de “reajuste dos salários pela média”, que foi a base da URV, em 1994, de forma pacífica, mas isso se deu após quase dez anos de discussões infindáveis e o fracasso prévio de cinco planos de estabilização que tinham sido baseados nesse princípio. Acho que algo assim tende a acontecer com propostas de reformas como a da Previdência. Eu e alguns colegas estamos defendendo certas ideias nesse campo há mais de 20 anos. Um dia serão aceitas. Penso que teria sido melhor se tivessem vingado em 1995, no começo da estabilização, mas vale a frase de que “antes tarde do que nunca”.

RESENHA – Por que alguns países dão certo e outros não? Como o Brasil se encaixa nessa análise institucional sobre o crescimento? Como avançar em questões como educação, regulação, produtividade, respeito às leis?

FABIO GIAMBIAGI – Aqui é importante tentar evitar o dilema “o que veio primeiro: o ovo ou a galinha?”. É evidente que a Alemanha, para pegar um caso paradigmático, tem muito mais e melhor aquilo que a gente gostaria que o Brasil tivesse: educação, produtividade, etc. Ela já é um país desenvolvido há muito tempo, portanto é natural que muitas coisas lá sejam mais avançadas do que aqui. Parêntese: nos últimos tempos, infelizmente, até o futebol. Continuando: vamos fazer uma comparação mais pertinente, porém, e olhar para o que países que no passado eram parecidos com o Brasil fizeram e os levaram a se diferenciar. E neste sentido as experiências de Coreia do Sul ou do Chile, por exemplo, deixam ensinamentos importantes. De um modo geral, em alguns casos mais e em outros menos, o que se constata olhando para as experiências que deram certo é a vigência do que eu chamo de “pentágono virtuoso”, composto de: i) ambiente de competição, ii) poupança doméstica relativamente robusta, iii) educação de qualidade, iv) boa infraestrutura e v) gasto público eficiente. Não preciso dizer como estamos afastados desta receita. Em matéria de competição, somos o país do cartorialismo e da reserva de mercado por excelência, nossa poupança doméstica é ridícula, a educação é sofrível, a infraestrutura está em pandarecos e a eficiência do gasto público dispensa comentários. Qualquer brasileiro que vá fazer turismo no Chile sente vergonha do Brasil. E 40 anos atrás eles estavam de certa forma pertinho da Bolívia. Os chilenos fizeram o dever de casa. Nós não.

Em matéria de competição, somos o país do cartorialismo e da reserva de mercado por excelência, nossa poupança doméstica é ridícula, a educação é sofrível, a infraestrutura está em pandarecos e a eficiência do gasto público dispensa comentários. Qualquer brasileiro que vá fazer turismo no Chile sente vergonha do Brasil. E 40 anos atrás eles estavam de certa forma pertinho da Bolívia.

RESENHA – Os países que chegaram atrasados ao século 20 normalmente não deram mais certo, com poucas exceções. Estamos condenados ao atraso?

FABIO GIAMBIAGI – Não necessariamente. Não estamos condenados, embora estejamos em crise, no sentido gramsciano, de Antonio Gramsci, que dizia que “a crise consiste precisamente do fato de que o velho morreu sem que o novo ainda tenha nascido”. Confesso que, por vezes, a pobreza do debate público me deprime. O que me permite preservar certo otimismo, porém, é a quantidade de gente capaz que há nas diversas áreas. Creio que essa massa de pessoas acabará encontrando uma liderança. Como dizia Ortega y Gasset, “eu sou eu e minhas circunstâncias”. O próprio Fernando Henrique, que se revelou um estadista, não era claramente um líder antes de 1994 pela sua trajetória prévia. Mesmo tendo tido muitos méritos como presidente, ele foi em parte moldado pelo momento histórico em que lhe coube exercer o comando do país e pela equipe excepcional que trabalhou com ele. Tenho um amigo que afirma que “o Brasil precisa ter no governo três mil pessoas competentes, honestas e articuladas para poder progredir”. E, lendo os jornais, vendo TV, dando palestras aqui e acolá, conversando com gente ótima que tive a felicidade de conhecer ao longo da vida em diversas áreas, vejo que temos material humano para levar o país a um futuro bem melhor do que a realidade atual, na economia, na engenharia, no direito, na gestão, etc. Há muitos profissionais excelentes espalhados pelo Brasil, nos diversos ramos de atividade. O papel do governo deve ser encaixar essas pessoas no lugar correto e transmitir a mensagem certa à população, para liderar uma agenda de reformas. Estas requerem cinco condições: a) um bom diagnóstico, b) convicções firmes, c) energia para implementar a agenda, d) uma enorme capacidade de persuasão e, finalmente, e) um grande poder de articulação política. No dia em que esses requisitos forem cumpridos, o país vai dar um salto.

RESENHA – Em um dos seus livros, o senhor listou dez vacas sagradas do Brasil que “acorrentam” o avanço do país: salário mínimo, que não é mínimo, Previdência, assistencialismo exacerbado, direitos dos incluídos, vinculação, juros subsidiados, transferências, taxação do capital, protecionismo e viés anticapitalista, que foi o começo da nossa conversa e tema de um dos seus livros mais recentes. Como mandá-las “para o matadouro”? Não lhe parecem todas resultantes do que o ex-ministro Delfim Netto diz ser a crença do brasileiro de que o governo cria dinheiro?

É claro que eu não poderia prever a intensidade dos erros tremendos que foram cometidos depois entre 2012 e 2014, nem a crise política de 2015, mas a ideia de que há entraves profundos ao crescimento, associados a crenças muito enraizadas na mentalidade de um contingente expressivo de pessoas no país, estava lá no meu livro escrito há dez anos.

FABIO GIAMBIAGI – Não há espaço aqui para tratar todos os temas em detalhes, até pelo fato de que a lista é heterogênea e alguns pontos são mais defensáveis do que outros, mas da forma em que se deram as coisas no Brasil, essas questões levaram o Estado à exaustão e constituem o “decálogo do insucesso” do meu livro Brasil – Raízes do atraso, que escrevi em 2006, com título evidentemente inspirado no Raízes do Brasil, do mestre Sérgio Buarque de Holanda. Este livro teve uma trajetória interessante. Ele vendeu muito durante alguns anos e depois fui me esquecendo dele. Alguns anos depois, tive a alegria de que ele fosse indicado por uma instituição financeira como o livro do ano que ela escolhia para fazer uma edição especial para seus clientes VIP. A instituição me contratou então para fazer uma palestra sobre o livro e foi então que fui relê-lo. Entre a publicação do livro e esse pequeno prêmio tinham se passado alguns anos, durante os quais o Brasil vivera um boom. Me vi então na curiosa contingência de falar acerca de um livro relativamente pessimista sobre o país, numa situação de euforia e na qual tudo parecia dar certo. E, entretanto, ao rever as páginas do livro, uma a uma, eu constatava que as “vacas sagradas” estavam todas lá: nenhuma fora removida. O tom da minha palestra foi fiel ao livro e acho que não fiz muito sucesso, porque naquele contexto as pessoas estavam querendo comprar otimismo, quando minha mensagem foi mais ou menos a seguinte: “me desculpem fazer o papel de Cassandra, mas nós não temos um país para continuar crescendo 4 ou 5% ao ano”. E, infelizmente, eu estava certo. É claro que eu não poderia prever a intensidade dos erros tremendos que foram cometidos depois entre 2012 e 2014, nem a crise política de 2015, mas a ideia de que há entraves profundos ao crescimento, associados a crenças muito enraizadas na mentalidade de um contingente expressivo de pessoas no país, estava lá no meu livro escrito há dez anos.

Observe-se, a propósito, esta pergunta de uma prova de geografia para alunos do nono ano de uma das melhores escolas do País: “Até os dias atuais, muitos países pobres ainda estão pagando os empréstimos tomados no exterior e mesmo tomando novos empréstimos. A consequência é muito grave, pois, ao pagar as dívidas e os juros, resta-lhes pouco dinheiro para investir em educação, saúde, saneamento básico, etc. Nessas condições, é difícil realizar o desenvolvimento econômico e social. A dívida externa torna-se um grande obstáculo para os países pobres. Cite dois obstáculos que essa dívida externa produz”. A infeliz criatura, com menos de 15 anos, já aprende, de forma sub-reptícia, primeiro, que pagar as dívidas é ruim. Segundo, que cobrar dívidas, por parte do credor, conspira contra o desenvolvimento social. Terceiro, que juro é um pecado. Quarto, que o ideal seria que as dívidas fossem perdoadas, e, quinto, por analogia, que o Brasil é um país como o “sujeito oculto” retratado na prova – que precisa viver da caridade. O desserviço que um professor que aplica uma prova dessas presta ao futuro do país é algo descomunal. Coloque-se essa mesma turma na Alemanha e os garotos vão aprender a se preparar muito melhor para o mundo, com aulas que ensinam a vida como ela é e não uma história de mocinhos e bandidos. O curioso é que o mesmo garoto que aprende na aula essas noções tolas de como é o mundo sai da aula e entende perfeitamente que se o Madureira enfrentar o Barcelona, de cada cem vezes que se enfrentarem o Barcelona vai vencer 99 porque é muito melhor e é natural que assim seja. Por isso, no meu livro mais recente, Capitalismo – Modo de usar, coloco ênfase na associação entre as virtudes da competição para o sistema fazendo o paralelo com o que ocorre no futebol, onde só os melhores chegam na final da Champions League – e todo mundo aceita e encara isso como natural. Competição é o nome do jogo e a chave do sucesso.

RESENHA – Falando ainda das “vacas sagradas”, elas dificultam o desenvolvimento do mercado de capitais?

FABIO GIAMBIAGI – Esse é mais um caso em que as coisas estavam indo relativamente bem no país até 2007 e começo de 2008. Aproveitou-se um contexto delicado na crise de 2008 para impulsionar uma agenda mais estatizante e que acarretou uma série de problemas. O que se vivenciava até 2007? Uma situação com um conjunto de intervenções importantes na economia, mas com contas públicas ajustadas, taxa de juros que tendencialmente estavam em declínio e um boom na Bolsa e no mercado de capitais, que fazia com que o papel do governo em termos relativos fosse minguando um pouco. Quando vem a crise, há uma ação contracíclica estatal. E me parece que em relação a isso estamos todos de acordo que naquele momento ela era necessária. Mas depois o Estado não se retirou. Não é que não se retirou com a mesma velocidade com que entrou: na realidade não se retirou. Ele ficou e aí há uma série de situações em que o país sofreu uma regressão e o mercado de capitais não voltou a ter o peso relativo que teve até 2007. Eu diria que depois dessas intervenções todas do período 2008-2014/2015, está na hora de realmente se retomar uma agenda de fortalecimento do mercado de capitais, de retirada gradual do Estado da economia, etc.

RESENHA – O senhor gostaria de desenvolver um pouco com relação a essa agenda de desenvolvimento do mercado de capitais? Que ações acha que são essenciais e que deveríamos adotar?

FABIO GIAMBIAGI – Em boa parte, elas estão associadas a essa agenda maior do ajuste fiscal. Enquanto continuarmos tendo um déficit fiscal de quase 10% do PIB e uma inflação muito elevada como a dos últimos tempos, fica difícil. Evidentemente que não se trata de uma situação tão grave quanto a dos anos 1980, em que a gente teve todos aqueles problemas que conhecemos muito bem. No entanto, é certamente um contexto muito prejudicial para o tipo de iniciativas que vínhamos tendo até 2007, associadas ao alongamento do horizonte de referência dos investidores em um contexto de previsibilidade macroeconômica e juros declinantes, como os que se viviam até então. A agenda do ajuste fiscal está associada à agenda de recuperação da poupança pública e de recuperação da poupança agregada da economia. No bojo desse processo será possível retomar a própria agenda de desenvolvimento do mercado de capitais, que vinha sendo tocada no período 2004-2007. Mas se essas grandes questões não forem endereçadas a contento, é difícil.

A agenda do ajuste fiscal está associada à agenda de recuperação da poupança pública e de recuperação da poupança agregada da economia. No bojo desse processo será possível retomar a própria agenda de desenvolvimento do mercado de capitais, que vinha sendo tocada no período 2004-2007. Mas se essas grandes questões não forem endereçadas a contento, é difícil.

RESENHA – Em que medida o viés anticapitalista no Brasil afeta o avanço dos mercados?

FABIO GIAMBIAGI – Há uma questão de desconhecimento por parte de enorme maioria da população acerca de como funciona o mercado. Infelizmente, nesse sentido eu diria que a crise de 2008 gerou um problema mundial no sentido dessa desconfiança acerca do bom funcionamento dos mercados, que se acentuou não apenas no Brasil como também no resto do mundo, gerando episódios como os do Occupy Wall Street e outros similares em outros lugares do mundo. Isso gera a necessidade daqueles que defendem o livre funcionamento do sistema enfatizarem os benefícios do capitalismo. Mas gera também nas autoridades o desafio de aprimorarem os controles regulatórios de uma forma que mitiguem os riscos de repetição de crises, como a que vivenciamos em 2008, decorrentes em parte de falhas de regulação, sem matar o desenvolvimento do sistema financeiro.

RESENHA – Poderia dar exemplos desse viés anticapitalista em nosso cotidiano?

FABIO GIAMBIAGI – O livro cita vários, mas o manancial é inesgotável. Basta ler os jornais uma semana, em qualquer época, e os exemplos se amontoam aos borbotões. Vejamos só alguns exemplos recentes: aprovação do Congresso da medida que revoga parcialmente o fator previdenciário, decisão do Congresso de estender a todos os aposentados os aumentos reais do salário mínimo, a reivindicação generalizada das manifestações de junho de 2013, que surgiram em defesa de menores tarifas, algo que é uma violência contra a lógica econômica, e a reação que houve às medidas elementares de ajuste propostas. São todas, de um modo geral, expressões de uma sociedade que acredita que os recursos dependem de uma misteriosa “vontade política” e não de produzir mais, ser mais produtivo e mais eficiente.

RESENHA – Por que essas ideias são tão populares no Brasil?

FABIO GIAMBIAGI – O Brasil cresceu muito entre 1930 e 1980 e o fez adotando exatamente políticas que não são as adequadas para o mundo de hoje. Por que deu certo naquele período histórico? Por uma série de razões que favoreceram aquele processo. Entre elas, o fato de que isso coincidiu com um processo de migração campo-cidade, que é uma das razões tradicionais do desenvolvimento de alguns países durante certa fase da sua história, de que havia uma extensa pauta de importações com produtos que poderiam ser substituídos por produção local, de que o processo se iniciou com uma carga tributária baixa, etc. Nessas condições, a intervenção estatal em todas as suas dimensões, durante 50 anos, não se pode negar que gerou um país melhor e mais desenvolvido. E isso deixou raízes profundas no imaginário nacional, embora guarde pouca relação com as prescrições recomendáveis no mundo de hoje.

RESENHA – O capitalismo é sujeito a crises. Como combatê-las sem sufocar as virtudes do empreendedorismo e da competição?

FABIO GIAMBIAGI – O livro Capitalismo – Modo de Usar tem toda uma reflexão extensa sobre esse fenômeno e resgata o papel de Schumpeter, talvez o melhor teórico do capitalismo. Joseph Schumpeter dizia que capitalismo estável é uma contradição em termos e que é essa instabilidade que gera o progresso. Ele tem uma frase famosa que define o capitalismo como a “tempestade eterna da destruição criadora”. É justamente a vontade de criar, de derrubar barreiras, de inventar algo novo, de descobrir um novo método de produção ou comercialização, que faz o sistema se mover. Nesse processo, muita gente sofre perdas temporárias, há empresas que quebram, pessoas perdem o emprego, mas no conjunto esse mecanismo de organização social e econômica desenvolvido pelo ser humano permitiu nos últimos 250 anos de história da humanidade um progresso maior que o dos cinco mil anos anteriores. O governo deve procurar mitigar os efeitos negativos com instrumentos como o seguro-desemprego, mas o que precisamos entender é que o papel do governo deve ser complementar e o que tem que funcionar é o sistema de mercado.

A tarefa principal do governo deve ser muito mais a de ensinar a pessoa a pescar que de dar o peixe. O problema é que viramos um país de pedintes, onde todo mundo tem algum peixe a pedir para o governo e agora o aquário está secando e o governo precisa racionar os peixes, porque quase ninguém sabe pescar.

RESENHA – O Brasil ainda possui muita desigualdade de renda. Como conciliar políticas de redução da pobreza e crescimento? Qual deveria ser o papel do governo?

FABIO GIAMBIAGI – Vou usar um velho chavão. A tarefa principal do governo deve ser muito mais a de ensinar a pessoa a pescar que de dar o peixe. O problema é que viramos um país de pedintes, onde todo mundo tem algum peixe a pedir para o governo e agora o aquário está secando e o governo precisa racionar os peixes, porque quase ninguém sabe pescar.

RESENHA – O senhor acha que a questão fiscal no Brasil, ou seja, como financiar o nosso contrato social, vai se equacionar através de um novo governo que tenha isso na agenda, ou isso é um assunto tão impopular que só vamos resolver isso em uma crise muito profunda? Qual é a sua visão?

FABIO GIAMBIAGI – Eu vou mudar um pouco os termos da equação. A pergunta faz menção ao financiamento do contrato social, que é um problema, mas acho que a solução disso passa por mudar o próprio contrato social. Na minha defesa de uma reforma da Previdência seguidamente me defronto com a acusação de que eu defenderia uma posição tecnocrática que ignoraria o fato de que a Constituição é um pacto social.

O que eu digo é que isso não é verdade. Obviamente reconheço que a Constituição é, sim, um pacto social, mas que, como todo pacto, pode ser repactuado em função das circunstâncias. O conjunto de dispositivos que temos hoje referentes à Previdência são resultantes de um conjunto de fatos que prevaleceram de 1988 até agora, mas que têm que ser revistos à luz das novas circunstâncias e, notadamente, de dois elementos. Em primeiro lugar, o fato de que hoje a Previdência, o INSS especificamente, pesa o triplo em termos relativos do que pesava em 1988, pois naquela época gastávamos 2,5% do PIB e agora gastamos 7,5% do PIB. Em segundo lugar, o das mudanças demográficas, que são realmente dramáticas em perspectiva na relação com o quadro que existia no fim dos anos 1980. Faço muito o paralelo entre a questão previdenciária e a questão ambiental. O mundo de novembro de 2015 não é muito diferente no que se refere à relação entre o homem e o meio ambiente do que o mundo de outubro de 2015, mas ele é muito diferente do mundo de 1965, 50 anos atrás. Com a Previdência, acontece a mesma coisa. A situação demográfica para a Previdência de dezembro de 2015 não vai ser muito diferente em relação à de novembro, mas a situação de 2040 ou 2050 será radicalmente diferente da situação de agora. Só que as pessoas que, pela lei atual, se aposentariam na altura de 2050 já estão começando a entrar no mercado de trabalho agora. Então, se a gente não começar a pensar em qual vai ser o futuro daqui a 35 anos, o risco que corremos é de que as pessoas sejam atropeladas pelas circunstâncias e tenham que arcar com uma carga tributária que vai dificultar enormemente o progresso do país. O problema do futuro é que um dia ele vira presente e o presente vira passado. E, como diz o Paul McCartney e eu cito na epígrafe de um dos meus livros, “yesterday came suddenly”. O tempo passa e um dia a conta da inércia chega.