Crônica de uma crise financeira 2017-02-10T11:00:41+00:00

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Crônica de uma crise financeira

O Centro de Memória da BM&FBOVESPA guarda dois exemplares originais raríssimos, com mais de 120 anos, do livro “O Encilhamento -Cenas Contemporâneas da Bolsa do Rio de Janeiro em 1890,1891,1892”. Trata-se de uma crônica da primeira crise financeira de grandes proporções no Brasil, que, ao longo dos anos, aprendeu a conviver com essas circunstâncias que se tornaram frequentes no noticiário do País.

O livro foi escrito por Alfredo d’Escragnolle-Taunay (1843-1899), o Visconde de Taunay. A princípio, saiu em um folhetim, em 1893, na “Gazeta de Notícias”, um dos grandes jornais da época. Temeroso com retaliações políticas, Taunay escreveu, primeiro, sob o pseudônimo Heitor Malheiros.

Taunay fala dos ricos que tinham “lastro”, os cafeicultores paulistas, e dos empresários que surgiram da noite para o dia. Enquanto a crise durou, ele descreve uma sociedade sem regras e as disputas entre “esfoladores” e “esfolados”. O livro é uma narrativa “da rápida mudança social dos primeiros anos da República”1 e de como a elite do País não estava preparada para elas. 

O Visconde de Taunay fez sua carreira no Império, quando foi deputado, presidente de Província e senador pelo Partido Conservador. Escreveu alguns clássicos da literatura brasileira, como “Inocência” (1872), primeiro filme estrelado pela atriz Fernanda Torres (1983). O Visconde de Taunay era “um apreciador da liturgia dos salões aristocráticos”2. Seu mundo caiu com a República, proclamada em 15 de novembro de 1889.

  • Os dois exemplares originais, com mais de 120 anos, do livro “O Encilhamento – Cenas Contemporâneas da Bolsa do Rio de Janeiro em 1890,1891,1892

Seu patrimônio virou pó com a crise financeira que se seguiu ao fim do Império. O livro é um ajuste de contas com esse passado que ruiu.

A República foi abalada logo em seu início pela temerária política econômica adotada pelo famoso jurista e orador Rui Barbosa, o primeiro a ocupar o cargo de ministro da Fazenda após o fim do Império.

Barbosa acreditava que a emissão de moeda deveria atender às “legítimas necessidades dos negócios”3. Na prática, patrocinou uma das mais rápidas e violentas expansões monetárias da história econômica do Brasil. Entre sua principal medida de política econômica, a lei bancária de 17 de janeiro de 1890, criando novidades nas regras financeiras, e setembro daquele mesmo ano, a quantidade de papel-moeda em circulação aumentou 40%.

A expansão monetária levou a uma grande expansão do crédito, movimento que guarda semelhança com a tentativa recente, e sem sucesso, de gerar desenvolvimento econômico no Brasil sem aumento das taxas de investimento.

A política de Rui Barbosa não tardou em inflar uma espantosa bolha especulativa. Empresas fantasmas foram criadas para pegar esse dinheiro fácil, a especulação tomou conta da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro e o custo de vida disparou.

A bolha ficou conhecida como encilhamento, uma referência às últimas providências na preparação de um cavalo antes do páreo. Encilhar é apertar a cilha, a tira de pano ou couro que prende a sela ao cavalo. As revistas da época diziam que a diversão dos pobres era o jogo do bicho, já muito popular no Rio de Janeiro. A dos ricos era o encilhamento, o jogo com as ações.

A Bolsa de Valores do Rio virou um autêntico cassino com a roleta das emissões de “novas empresas” girando a toda velocidade. As ações começaram a subir com o excesso de liquidez na economia e as empresas fantasmas “assombraram” o Rio de Janeiro.

Logo no ano seguinte, 1891, a bolha estourou. Bancos e empresas quebraram. A moeda brasileira despencou em relação à libra esterlina, sua principal referência externa na ocasião. Barbosa deixou a Fazenda no início de 1891. Foi substituído pelo médico Joaquim Murtinho, ministro que ajustou a economia com ortodoxia.

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