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A importância da Central de Exposições de Derivativos (CED) para a Gestão do Risco de Crédito do Mercado Financeiro 2017-02-10T11:00:40+00:00

Project Description

A importância da Central de Exposições de Derivativos (CED) para a Gestão do Risco de Crédito do Mercado Financeiro

Contexto histórico

Como é de amplo conhecimento, a crise financeira de 2008 teve início no mercado de crédito imobiliário norte-americano e rapidamente contaminou todo o conjunto de instituições financeiras, levando à falência grandes bancos. A quebra do Lehman Brothers foi o evento que deflagrou a crise após recusa do Federal Reserve, banco central americano, em socorrer a instituição. Esta atitude gerou desconfiança no mercado financeiro, pois desmistificou o conceito, convencionado pelo mercado, de que a autoridade americana iria socorrer todas as instituições financeiras afetadas pelas especulações no mercado imobiliário. Este rompimento produziu um grande temor entre as instituições financeiras, o que resultou em um aumento significativo da busca por liquidez. Como consequência, houve um forte processo de venda de ativos financeiros, levando à queda súbita de seus preços e contração do crédito bancário, afetando diretamente a economia real (comércio e produção industrial).

Os efeitos foram muito além dos bancos, pois centenas de empresas também sofreram. No mercado brasileiro, algumas empresas bastante conhecidas possuíam em sua carteira operações de derivativos extremamente alavancadas e com volume financeiro consideravelmente alto. Importante ressaltar que a alavancagem em si, desde que sob uma gestão de riscos eficiente, não é ruim.

Como as operações dessas empresas estavam em posição vendida em moeda estrangeira, na sua maior parte em dólar, ao culminar a crise em 2008 a cotação do dólar teve uma alta expressiva e a consequência para suas operações foi imediata: fortes perdas impulsionadas pela alavancagem.

Em 2008, apenas para citar um exemplo, a Aracruz tinha em seu portfólio de operações financeiras um volume considerável de posição vendida de derivativos plain vanilla e exóticos indexados à variação cambial. No dia 25 de setembro do mesmo ano, a Aracruz divulgou um fato relevante afirmando:

“…o volume de perda máxima em derivativos e de exposição máxima em operações de câmbio futuro decorrente de tais operações pode ter excedido os limites previstos na política financeira aprovada pelo Conselho de Administração”.

No dia 2 de outubro seguinte, a empresa divulgou novo fato relevante, desta vez informando que o valor justo dos contratos, apurado na data de 30 de setembro de 2008, era negativo em R$ 1,95 bilhão.

Todos esses efeitos chamaram a atenção do mercado e principalmente dos órgãos reguladores quanto ao uso considerado adequado (ou responsável) dos derivativos. À medida que a crise tomava proporções, as falhas e negligências do aparato regulatório foram ficando evidentes no mercado norte-americano e em diversos países de relevância na economia global. Com isso, acendeu-se o alerta no mercado financeiro mundial e a preocupação com uma maior regulação e supervisão do mercado fez com que surgissem novas leis (a Lei de Dodd Frank, nos Estados Unidos, é um exemplo clássico), além de um papel mais atuante de órgãos reguladores.

No mercado brasileiro, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Banco Central do Brasil (BCB) são os órgãos centrais que atuam como supervisores e reguladores do mercado financeiro e de capitais. Por meio de suas resoluções são impostos regras, processos e controles para instituições financeiras e empresas de capital aberto no que diz respeito a operações financeiras envolvendo derivativos.

Um exemplo de ação importante tomada pela CVM diante da crise de 2008 foi a aprovação da Instrução nº 475/08. Ela exige das companhias de capital aberto a obrigatoriedade da apresentação em seu balanço de informações sobre todos os instrumentos financeiros (derivativos ou não) por meio de nota explicativa específica divulgando um quadro demonstrativo de análise de sensibilidade.

Ainda que o mercado financeiro e de capitais brasileiro seja considerado um dos mais bem regulados e regulamentados, havia  uma preocupação muito forte por parte das entidades de classe e da iniciativa privada em favor da autorregulação e de ações que pudessem tornar este mercado mais transparente e seguro. Percebeu-se a necessidade de adotar procedimentos como padronização de contratos para derivativos, práticas mais claras na negociação desses contratos por meio de suitability e centralização de informações sobre negociação desses contratos, especialmente no mercado de balcão, no que diz respeito à sua exposição ao risco.

A CED

Nesta linha surgiu a Central de Exposição a Derivativos (CED). Trata-se de uma entidade sem fins lucrativos resultante da iniciativa conjunta entre a Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN), BM&FBOVESPA e Central de Custódia e de Liquidação Financeira de Títulos (Cetip), tendo como premissa a consolidação da exposição às operações de derivativos realizadas no mercado local, seja por pessoa física ou jurídica, e disponibilizar estas informações às instituições financeiras, obedecendo a critérios rigorosos de confidencialidade e segurança da informação.

Oficialmente lançada em dezembro de 2010, a CED teve suas informações disponibilizadas às instituições financeiras por meio de seu sistema em julho de 2011. A FEBRABAN é a principal associada da CED, nomeando 50% dos conselheiros da entidade. Atualmente possui como participantes as instituições financeiras que respondem por mais de 90% do mercado de derivativos negociados no País.

A CED tem como principal objetivo possibilitar aos seus participantes acompanhar melhor a performance de seus clientes no uso dos derivativos – proteção, especulação ou arbitragem – e, consequentemente, realizar uma gestão mais eficiente do seu risco. Ao acessar o sistema, os participantes consultam um relatório consolidado de seu cliente, constando a posição que ele possui no mercado de derivativos com informações como: fatores de risco aos quais o cliente está exposto, posição ativa (comprada) ou passiva (vendida) e valor notional no curto e longo prazos. Por se tratar da posição consolidada que o cliente tem no mercado como um todo (por ora, apenas o mercado brasileiro), estas informações são importantes para os bancos. Em uma área de crédito, por exemplo, permite verificar que o derivativo com posição passiva em moeda estrangeira que seu cliente possui não está em linha com uma posição ativa no mesmo fator de risco indicado em seu balanço. Com isso, o analista de crédito pode questionar o cliente quanto à finalidade daquela operação, uma vez que, ao comparar o relatório da CED com os dados de balanço da empresa, aponta para uma estratégia de especulação utilizando derivativos.

O relatório da CED

O relatório consolidado das exposições de derivativos gerado pelo sistema da CED é alimentado por informações obtidas junto à BM&FBOVESPA e à Cetip. Como toda operação de derivativos negociada com as instituições financeiras é devidamente registrada, o relatório contempla todas as operações do mercado de bolsa e de balcão. As informações obedecem ao seguinte fluxo:

  • Figura 1: Fluxo de troca de informações entre a instituição financeira e a CED

O sistema contempla informações por CPF/CNPJ por meio de consulta única ou em lote, possibilitando ao participante obter até 500 relatórios em uma única requisição, tudo por meio de webservice.

É importante ressaltar que, para solicitar a consulta ao relatório da CED, as instituições financeiras precisam aderir ao regulamento da CED para se tornarem participantes e que, para solicitar o relatório de um determinado cliente (CNPJ ou CPF), é necessária uma autorização formal do mesmo.

Na concepção do sistema da CED houve uma preocupação intensa com o sigilo e a segurança das informações que resultaram em algumas diretrizes:

Garantir o sigilo absoluto das informações: o sistema identifica a instituição financeira solicitante e verifica se há autorização do cliente, antes do envio do relatório. O relatório não informa qual a instituição que o cliente realizou a operação, bem como não informa as características do derivativo que o cliente possui, mas exibe a consolidação dos valores contratados e registrados na BM&FBOVESPA e na Cetip, por fator de risco, por vértices genéricos de prazo (curto ou longo) e se a posição é ativa ou passiva.

Controle de acesso às informações mediante senha, os dados são criptografados e sua base permanece na origem (BM&FBOVESPA e Cetip).

As informações constantes no relatório da CED proporcionam às instituições financeiras participantes uma melhor gestão de risco de crédito, uma vez que permite identificar a consolidação de posições ativas ou passivas em um determinado fator de risco. Todos esses fatores podem contribuir para a redução da incerteza da capacidade de pagamento, podendo resultar em um menor spread de risco.

A atualização das informações contidas no relatório é feita diariamente com base na posição de fechamento do dia anterior (D-1).

Como a visão do relatório é simplificada, os fatores de risco estão divididos em:

– Taxa de Juros (pré e outros);

– Variação cambial (dólar e outros);

– Índices (Ibovespa e outros);

– Ações e commodities (em reais e dólares).

– Quanto ao horizonte de prazo, divide-se em:

– Até 360 dias corridos;

– Acima de 360 dias corridos.

– Apresenta também as posições ativa e passiva, ambas em cenários de alta e de baixa.

É importante destacar que o critério assumido para os cenários de alta e baixa tem o objetivo de identificar se há alguma opcionalidade embutida na operação e também pode capturar o comportamento de eventual alavancagem nos diversos fatores de risco.

Além disso, o relatório é bastante conservador na apresentação da exposição. Esta é uma premissa adotada pela CED para resguardar a estratégia do cliente e simplificar a informação. Veja algumas delas:

– Para swap, a exposição é o valor notional contratado;

– Opções com limitador ou barreira são consideradas plain vanilla;

– Não são considerados os percentuais do indexador. Exemplo: 90% do Ibovespa = 100% Ibovespa para fins de exposição.

A relação completa das premissas do relatório está publicamente divulgada em www.centralderivativos.org.br.

A seguir, um exemplo do relatório com dados simulados e a análise do mesmo:

  • Figura 2: Exemplo de retorno de consulta única de relatório da CED para um determinado CNPJ

No relatório acima, pode-se observar que o cliente do banco X está passivo em R$ 1 milhão em dólares, ativo na mesma proporção em taxa pré-fixada e também uma exposição de R$ 1,5 milhão em commodities em reais. Em seguida, juntamente com as informações de balanço do cliente, o analista poderá concluir se a operação realizada em dólares e a operação com commodities são para fins de hedge ou especulação.

Observe que os fatores de risco do exemplo apresentam valores tanto no cenário de alta quanto no de baixa, indicando uma linearidade no risco. Caso um fator de risco apresente valores concentrados apenas no cenário de alta ou apenas no cenário de baixa, pode-se identificar a presença de opcionalidade, ou seja, a empresa está posicionada em opções. Isso pode ser notado na Figura 2, o que indica que a empresa está ativa em Ibovespa apenas no cenário de alta.

Nesta situação, o relatório da CED auxilia a instituição financeira, que é a contraparte nas operações, na identificação também de alavancagem e na administração adequada de sua exposição, propondo, por exemplo, uma recompra (liquidação antecipada) ou negociando contratos na posição inversa.

Desde a liberação do acesso ao sistema, em julho de 2011, a quantidade de autorizações concedidas para acesso vem crescendo consideravelmente. Importante relembrar que são as autorizações por parte do cliente que permitem que as instituições financeiras participantes acessem o relatório.

  • Figura 3: Número de autorizações concedidas

O total de autorizações em fevereiro de 2016 está distribuído em 14 instituições participantes. Estas atualmente cobrem mais de 90% do mercado local de derivativos.

As instituições realizam suas consultas de modo singular ou em lote. A seguir é apresentada a evolução destas consultas.

A consulta por lote vem sendo largamente utilizada pelos participantes e seu crescimento foi expressivo desde que a funcionalidade foi disponibilizada em novembro de 2012. Por ser uma consulta automatizada, facilita o arquivamento, tratamento e análise dos dados, agilizando o trabalho de business intelligence.

  • Figura 4: Quantidade de consultas singulares
  • Figura 5: Quantidade de consultas por lote

Evolução do relatório

A proposta atual da CED vem cumprindo bem o seu papel. Seu relatório é simples, as informações são consolidadas e de fácil acesso. Possui um rigoroso controle de proteção aos dados e sigilo da informação. Como todo e qualquer serviço, sua evolução é um processo natural e esperado.

O mercado tem contribuído neste sentido, por meio de sua experiência de uso. A contribuição para sua evolução tem sido bastante significativa, principalmente com sugestões envolvendo informações mais técnicas sobre as operações. Algumas das propostas são:

  • Maior granularidade dos fatores de riscos: atualmente os fatores estão agrupados. Poder detalhar mais o agrupamento “outros” pode trazer ganhos importantes para o relatório.
  •  Expansão dos vértices de prazos: no presente relatório os prazos estão divididos apenas em dois (até ou acima de 360 dias corridos). Ter opção de intervalos menores e um maior número de prazos pode contribuir para a análise.
  • Flexibilização das premissas, principalmente no caso de opções (atualmente opções exóticas são tratadas como plain vanilla), pode refletir de forma mais justa o que está sendo negociado neste mercado.
  • Inclusão do cenário de estresse para cada fator de risco, considerando os prazos: esta informação pode contribuir significativamente para identificar a ordem de grandeza do potencial de perda em situações de crise.
  • Cálculo do delta (variação do preço do derivativo ao variar o preço de seu ativo): a informação pode ser muito importante para aqueles derivativos mais básicos. No caso de derivativos como opções plain vanilla ou exóticas (principalmente as opções path dependent[1]), esta informação só seria relevante quando em conjunto com as demais variáveis de sensibilidade (conhecidas como gregas).

Conclusão

As crises, em geral, nos evidenciam falhas que, quando maduramente compreendidas, resultam em lições. A crise de 2008 evidenciou a ineficiência dos reguladores de prever as consequências que as posições de alto risco tomadas pelas instituições financeiras podem trazer para a economia de um país. Leis, regulamentos e normas são instrumentos fundamentais para prevenir e proteger seus agentes. Ferramentas que possam proporcionar uma maior segurança na análise e gestão de riscos contribuem fortemente nesta direção.

A CED surgiu com este propósito. Mesmo sendo muito bem normatizado e regulamentado, o mercado brasileiro também está sujeito aos efeitos de movimentos na economia mundial. As informações que a CED provê ao mercado contribuem para melhorar a eficiência na mitigação de riscos. Sua preocupação com o sigilo e segurança dos dados, a clareza nas premissas de suas regras e o fácil acesso aos relatórios fazem dela uma importante entidade no auxílio à eficiência do mercado financeiro, na linha do que tange o seu papel.

São seus grandes desafios para este ano: adesão de novas instituições que demonstrem expansão em seus negócios com derivativos, prosseguir aumentando o número de autorizações e disseminação, cada vez maior, do uso do relatório por todas as áreas correlatas ao assunto. O amadurecimento de seus relatórios na direção do que o mercado propõe pode contribuir bastante para superação de seus desafios.

Bibliografia

Autores

Álisson Sávio S. Siqueira
Álisson Sávio S. Siqueira
Físico pela Unicamp, mestre em engenharia espacial pelo Inpe,pós-graduação em pricing e risco pela USP/IE BM&FBOVESPA e gerente acadêmico e de produtos educacionais do Int. Educ. BM&FBOVESPA
Fernando Padin Iglesias
Fernando Padin Iglesias
Diretor – Central de Exposição a Derivativos (CED)